Saturday, February 12, 2005

Poder das pontas

Com o estouro da bolha dotcom começo desta década, uma espécie de depressão tomou a indústria. Não havia mais aquele cheiro, característico das bolhas, de dinheiro fácil no ar , aquela sensação de que a cada dia uma nova GM estava sendo inventada, a exuberância do desabrochar de uma nova economia. Tudo acabou um dia no ano 2000, com uma bela linha descendente no gráfico do NASDAQ. Mas a Internet, a locomotiva desse trem insano, não foi junto para o precipício. Graças às suas características fundamentais, ela se reinventa, longe dos bolsos grandes e visão curta das corporações antigas e dos instintos estúpidos dos jovens investidores:
  • O movimento dos bloggers deu nova vida ao intento original da Web, um meio onde todos são leitores e autores de conteúdo. De passatempo geek, passou a moda adolescente, e agora já começa a assustar a grande mídia. O episódio do Dan Rather foi emblemático. Agora os blogs trazem a reboque outras novidades interssantes como os podcasts e screencasts.
  • A democratização na produção de conteúdo acompanha uma mudança no seu consumo. É o chamado fenômeno Long Tail. Pense na distribuição da frequência nos cinemas. Alguns blockbusters concentram a maior parte do público enquanto que os demais filmes lutam por espaço em umas poucas salas alternativas. Quando o conteúdo todo passa a estar permanentemente disponível, a qualquer momento, o padrão de consumo muda. Ainda existem os campeões de bilheteria, mas as outras produções começam a ver um fluxo maior de espectadores - é o long tail. Esse fenômeno pode ser extrapolado para toda produção de conteúdo que é disponibilizada de alguma forma na internet.
  • Veja o botãozinho laranja de "xml" ao lado. Ele leva a uma versão machine-readable deste blog. Isso possibilita a criação de programas que tratam a informação contida aqui e em todo outro blog que se disponibiliza da mesma forma (a maioria). É a progressiva estruturação do conteúdo na Web. Outra tecnologia nesta direção é o padrão Friend Of A Friend (FOAF), um tipo de documento que permite a formação de redes de relacionamento de forma mais integrada à mecânica da Web do que os sites como Orkut e Friendster. Estamos a caminho da utopia semântica do Tim Berners-Lee. Não sei dizer se chegaremos lá (a maioria aposta que não), mas o caminho promete ser muito interessante.
  • Agora, uma rápida expedição à camada física(*). Temos hoje um grupo de empresas, das mais obesas e lentas, que ganham rios de dinheiro à custa de buracos. Estou falando das empresas telefônicas, cujo grande ativo é a infra-estrutura implantada: kilômetros e kilômetros de cobre e fibra enredados nas nossas cidades. O substrato físico é relativamente barato, mas o que viabiliza estes grandes elefantes do mundo telecom é o vulto do investimento necessário para enterrar ou pendurar este monte de cabo. O que deveria perturbar o sono dos executivos dirigindo estes elefantes é o espectro das ondas de rádio, um fantasma onipresente e acessível, que só foi controlado estes anos todos por limitações tecnológicas e regulatórias. Sua manifestação mais recente foi na forma das redes de telefonia celular, porém estas também dependem de uma infra-estrutura cara, o que possibilitou a manutenção do controle nas mesmas mãos. Mas, como acontece com todo filme de terror ruim, haverá uma continuação. E esta será por meio das Wireless Mesh Networks. O princípio de funcionamento pode ser entendido como uma commoditização da rede de telefonia celular. Onde havia dezenas de antenas caríssimas falando GSM ou CDMA com aparelhos, teremos milhares de hubs baratos falando IP (protocolo da internet) entre si e com os mais diversos dispositivos. As tecnlogias Wi-fi revelaram-se desajeitadas para este tipo de aplicação devido à limitações de alcance e banda. Mas a próxima geração de redes de dados sem fio, o WiMax (IEEE 802.16a), muda esta figura permitindo comunicação de dezenas de megabits a kilômetros de distância.
  • Subindo agora algumas camadas, temos a tecnologia "Peer to Peer". Ganhou status de buzzword alguns anos atrás com a explosão do Napster, subsequentemente derrubado nos tribunais pela RIAA. Não quero chutar o cachorro morto da indústria fonográfica, mas é claro que os clones do serviço continuam vivos e bem. O buzz passou, mas, como é frequente, a tecnologia sobreviveu. Um sistema P2P pode ser descrito como um em que cada máquina particpiante (nó) atua como cliente e servidor - no Napster você servia os seus arquivos livres de copyright (yeah, right) e era cliente de outros nós quando baixava os arquivos deles. A encarnação mais recente desse tipo de sistema é o Skype - um software de telefonia na internet (VoIP) que forma uma rede P2P. Notem que ítem acima somado a este, na aritmética dos negócios, igualam à morte do mercado tradicional de telefonia - outra uma vítima da simplicidade da internet.
  • Software livre. Além das camisetas de bandas obscuras de metal e profusão de barbas e cabelos comprindos (nada contra), este fenômeno carrega outras características culturais. A disposição de milhares de voluntários, na maioria sem agenda ideológica, revela um movimento curioso que não se limita ao mundo dos programadores fãs de D&D e Tolkien. A Wikipedia é uma enciclopédia online que versa com qualidade sobre os mais diversos assuntos e é mantida por voluntários. (Este vídeo mostra bem a dinâmica do site.) O SETI@Home é um software que, ao ser instalado no seu PC, lhe permite (na verdade, permite ao seu pobre processador) participar do esforço de processamento numérico dos dados de ruído de rádio recebidos por satélites ao redor do planeta, com o objetivo de encontrar indícios de vida extraterrestre. Ignorando o aspecto chapeu-de-papéu-alumínio do projeto, este é um modelo bem-sucedido para a resolução de problemas computacionalmente difíceis que depende fundamentalmente da boa vontade de voluntários anônimos. Claro que um ranking motivando uma boa dose de competição não atrapalha... Projetos similares, de computação massivamente distribuida, trabalham para calcular propriedades estruturais de proteínas, descobrir números primos, entre . Uma dica: o trabalho do Yochai Benkler nesta área é bastante interessante.
Poder das pontas é nome que os físicos dão à propensão dos materiais a acumular carga nas pontas. Estes exemplos indicam que a internet possui propriedade análoga: a inteligência tende a se mover para as pontas. Este movimento tem o saudável efeito colateral de abalar as estruturas estabelecidas, democratizando a informação e a comunicação.




(*) - Camadas Física [1] e de Enlace [2] do modelo OSI para os networking-freaks por aí.

1 comment:

Benny said...

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